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Rascunhos
“Se na literatura busco recriar
a verdade que se esconde sob a realidade,
na vida corro o risco, às vezes fatal,
de recriar alguém que só existe na minha imaginação.”
- Fernando Sabino -

en boca cerrada no adentra mosquito

O aniversário da minha mãe está chegando e eu descobri que o Julio Iglesias estaria cantando por aqui e foi aí que surgiu a grande idéia: Vou levar minha mãe ao show!

Minha idéia brilhante esbarrou num pequeno detalhe: o valor do ingresso. Seriam 2 ingressos, mais a viagem de ida e volta, mais o final de semana com passeios e ... bom, digamos que meu orçamento não estava esperando esse pequeno mimo. Minha mãe bem que merece, mas não carece.

Então veio a segunda brilhante idéia. Meu irmão poderia cantar e embalar os ouvidos da mamãe,  e eu, de quebra, teria assunto para importuná-lo o resto da vida. Por que ele faria algo tão imbecil? Todo mundo tem seu preço e irmãos têm desconto...

A idéia foi semeada e aí precisava de água para crescer né.

Liguei para ele, do meio da rua e cantei... Mas não cantei simplesmente, eu cantei com vontade, lembrando os trejeitos, imitando a voz de conquistador, até fechando os olhos:

´Besame, besame mucho...Como sí fuera esta noche La ultima vez. ´ - nessa hora eu me empolguei - ´Besame, besame mucho. Que tengo miedo perdeste, perdeste depués. ´

Aí eu parei para atravessar a rua, calei a boca e escutei aquela gargalhada... uma gargalhada QUE NÃO ERA DO MEU IRMÃO!!!!!!

Eu liguei para um cliente do trabalho e cantei Besame Mucho para ele, com voz de taquara rachada e nem consegui pedir desculpas porque comecei a gaguejar. E se não consegui pedir desculpas, imagina  se consegui ao menos tentar explicar o porque desse show particular de minha loucura.

Em algumas horas minha rotina de trabalho volta ao normal, terei que conversar com o dito cujo e me apresentar calma, concentrada e coerente. Qual a chance de ele me levar à sério de novo?  



Escrito por Cris às 23h27
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Pegadas

É impressionante como um livro pode carregar tanta história, e não estou falando da história descrita, e sim da sua própria história. Tenho em minhas mãos um livro bem cuidado, mas com algum desgaste na capa começando a ser notado, um nome com endereço, algumas páginas marcadas pelo uso revelando que ele tem cumprido bem seu papel de difundir ou, eu poderia até arriscar a dizer, se difundir.

Fui uma leitora precoce – tanto na idade quanto nos títulos escolhidos. Me lembro de percorrer a enorme estante da sala com filas de livros, lembro de abri-los aleatoriamente para ver se gostaria da escrita – até hoje, minha maneira de escolher um livro. Lembro de livros de páginas amareladas – meus preferidos.  Lembro dos carimbos com as iniciais dos meus pais nas lombadas, lembro de uma tinta verde com o nome de minha avó, de quem peguei emprestada a caligrafia do A que uso até hoje. Lembro de manchas  que diziam que aquele livro acompanhou algum rápido lanche ou de orelhas mostrando o sono do leitor. Trechos grifados, insinuando o gosto de seu dono. A poeira em meu nariz, lembrando o abandono daquele exemplar.

Esse livro errante que roubou meu sono saiu do Rio, chegou a uma mineira erradicada em Sampa, vai percorrer um pedaço deste Brasil antes de voltar para casa. Junto com ele segue um postal como forma de agradecimento, a marca de uma lágrima que não segurei e todos os outros indícios de leitura que ainda serão deixados para sua dona, formando a própria memória daquele que segue contando a memória de um outro livro. E eu que nunca tinha pensado na história além da própria história.

´Então, por que um iluminador que trabalhava na Espanha, para um cliente judeu, à maneira de um cristão europeu, teria usado um pincel iraniano? ´ (As Memórias do Livro – Geraldine Brooks)

 



Escrito por Cris às 01h34
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E o selo vai para...

... O RASCUNHOS...

Ganhei esse selo da Katy (http://pensamentosehistorias.zip.net/). Ela não é um amor?

Valeu Katy. Thank you !!!



Escrito por Cris às 21h07
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